A celebração da conversão de São Paulo Apóstolo convida-nos a revisitar uma das experiências mais marcantes da história do cristianismo, a passagem radical de Saulo, perseguidor da Igreja, para Paulo, apóstolo incansável do Evangelho. Não se trata apenas de um episódio biográfico, mas de um verdadeiro paradigma de conversão, que continua a interpelar crentes e comunidades ao longo dos séculos.
Nascido em Tarso da Cilícia, cidade cosmopolita do mundo greco-romano, Paulo era judeu da diáspora, formado na observância rigorosa da Lei e orgulhoso da sua pertença ao farisaísmo. Educado «aos pés de Gamaliel», conhecia profundamente as Escrituras e partilhava o zelo daqueles que viam no movimento cristão uma ameaça à fidelidade de Israel. Por isso, nos primeiros tempos, tornou-se um ativo perseguidor dos seguidores de Jesus, convencido de estar a servir a Deus.
Eu, aliás, até poderia confiar na carne. Se alguém acha que pode confiar na carne, eu mais ainda: fui circuncidado ao oitavo dia, sou israelita de nascimento, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus. Quanto à Lei judaica, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que se alcança pela observância da Lei, sem reprovação.
Por causa de Cristo, porém, tudo o que eu considerava como lucro, agora considero-o como perda. E mais ainda: considero tudo uma perda, diante do bem superior que é o conhecimento do meu Senhor Jesus Cristo. Por causa d’Ele perdi tudo, e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo, e estar com Ele.
Fl 3,4-9a.
É neste contexto que ocorre o acontecimento decisivo da sua vida: o encontro com Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. A experiência, narrada nos Atos dos Apóstolos e evocada pelo próprio Paulo nas suas cartas, não é apenas uma mudança de ideias, mas um abalo existencial profundo. A pergunta que ressoa «Saulo, Saulo, porque Me persegues?» revela-lhe que perseguir a Igreja é ferir o próprio Cristo. A partir desse momento, tudo se reorganiza: a fé, a missão, a compreensão da Lei e da graça.
A conversão de Paulo não o afasta do mundo, mas lança-o numa missão sem precedentes. Chamado a ser «apóstolo dos gentios», ele atravessa o Mediterrâneo, funda comunidades, dialoga com culturas diversas e anuncia o Evangelho em contextos frequentemente hostis. As suas viagens missionárias mostram um homem movido por uma convicção profunda: o Evangelho é para todos, judeus e pagãos, sem distinção. Em Cristo, afirma Paulo, «já não há judeu nem grego», porque a salvação é dom gratuito de Deus.
As cartas paulinas, escritas no fervor da missão e em contacto direto com as comunidades, são um tesouro espiritual e teológico de valor inestimável. Nelas encontramos temas centrais da fé cristã: a justificação pela fé, a centralidade da graça, a liberdade cristã, a vida no Espírito, a Igreja como Corpo de Cristo e o amor como cumprimento da Lei. Paulo não escreve tratados abstratos; escreve a partir da vida, das dificuldades pastorais, dos conflitos e das alegrias das primeiras comunidades.
A figura de Paulo impressiona também pela sua humanidade. Ele conhece o cansaço, a incompreensão, a perseguição e a prisão. Não esconde as suas fragilidades, chegando a falar de um «espinho na carne» que o acompanha. Contudo, é precisamente nessa fraqueza que descobre a força da graça: «quando sou fraco, então é que sou forte». A sua vida torna-se testemunho de que a conversão não elimina os limites humanos, mas transforma-os em lugar de encontro com Deus.
Celebrar a conversão de São Paulo é, portanto, mais do que recordar um evento passado. É reconhecer que a fé cristã nasce de um encontro pessoal com Cristo, capaz de mudar radicalmente o rumo da vida. Paulo lembra-nos que ninguém está definitivamente fechado à graça e que Deus pode transformar até as histórias mais improváveis em caminhos de missão e fecundidade.
Esta memória assume um significado particular para os Padres e Irmãos Paulinos. Inspirados pelo apóstolo que deu nome à nossa família espiritual, somos convidados a renovar o ardor missionário, a coragem do diálogo com o mundo contemporâneo e a confiança na força transformadora do Evangelho. À semelhança de Paulo, também hoje somos chamados a deixar-nos converter continuamente, para que Cristo viva em nós e seja anunciado, com palavras e com a vida, até aos confins do mundo.
