Mensagem do Papa Leão XIV para o XXXIV Dia Mundial do Doente
Cl. Daniel TitoPartilhar
“A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro”
Queridos irmãos e irmãs,
O XXXIV Dia Mundial do Doente será celebrado solenemente em Chiclayo, no Peru, a 11 de fevereiro de 2026. Para esta ocasião, quis propor novamente a imagem, sempre atual e necessária, do bom samaritano, a fim de redescobrirmos a beleza da caridade e a dimensão social da compaixão, e chamar a atenção para os necessitados e para os que sofrem, como são os doentes.
Todos nós já ouvimos e lemos este texto comovente do Evangelho segundo São Lucas. A um doutor da lei que lhe pergunta quem é o próximo a amar, Jesus responde contando uma história: um homem que viajava de Jerusalém para Jericó, assaltado por ladrões, foi abandonado quase morto; um sacerdote e um levita passaram ao largo, mas um samaritano encheu-se de compaixão, tratou-lhe as feridas, levou-o para uma hospedaria e pagou para que cuidassem dele. Desejei propor a reflexão sobre esta passagem bíblica à luz da Encíclica Fratelli tutti, do meu querido predecessor, o Papa Francisco, na qual a compaixão e a misericórdia para com os necessitados não se reduzem a um mero esforço individual, mas realizam-se na relação: com o irmão necessitado, com aqueles que cuidam dele e, fundamentalmente, com Deus, que nos oferece o seu amor.
1. O dom do encontro: a alegria de oferecer proximidade e presença
Vivemos imersos na cultura do efémero, do imediato e da pressa, bem como do descarte e da indiferença, que nos impede de nos aproximarmos e de parar no caminho para olhar as necessidades e os sofrimentos à nossa volta. A parábola relata que o samaritano, ao ver o ferido, não passou ao largo, mas teve para ele um olhar aberto e atento, o olhar de Jesus, que o levou a uma proximidade humana e solidária. O samaritano parou, ofereceu proximidade, curou com as próprias mãos, pôs dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele, dando-lhe sobretudo o seu tempo. Jesus não ensina quem é o próximo, mas como ser próximo, ou seja, como nos tornarmos nós mesmos próximos.
O amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar. Por isso, o cristão faz-se próximo daquele que sofre, seguindo o exemplo de Cristo, o verdadeiro Samaritano divino que se aproximou da humanidade ferida. Não se trata de meros gestos de filantropia, mas de sinais nos quais se pode perceber que a participação pessoal nos sofrimentos do outro implica dar-se a si mesmo. Esta caridade alimenta-se necessariamente do encontro com Cristo, que por amor se entregou por nós. São Francisco de Assis explicava-o quando, falando do seu encontro com os leprosos, dizia que foi o próprio Senhor que o conduziu até eles, pois através deles descobriu a doce alegria de amar.
O dom do encontro nasce do vínculo com Jesus Cristo, a quem reconhecemos como o bom samaritano que nos trouxe a saúde eterna e a quem tornamos presente quando nos inclinamos diante do irmão ferido. Amar aquele que imita Cristo e se associa ao sofrimento dos necessitados é participar da unidade do corpo, vivendo a proximidade, a presença e o amor recebido e partilhado.
2. A missão partilhada no cuidado dos doentes
O Evangelho continua dizendo que o samaritano encheu-se de compaixão. Ter compaixão implica uma emoção profunda que conduz à ação. É um sentimento que brota do interior e leva a assumir um compromisso com o sofrimento alheio. Nesta parábola, a compaixão é a característica distintiva do amor ativo. Não é teórica nem sentimental, mas traduz-se em gestos concretos: o samaritano aproxima-se, cura, responsabiliza-se e cuida.
Ele, porém, não age sozinho. Procura um estalajadeiro e envolve outros no cuidado daquele homem ferido. Assim também nós somos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num “nós” mais forte do que a soma de pequenas individualidades. Na minha experiência como missionário e bispo no Peru, pude constatar como muitas pessoas partilham a misericórdia e a compaixão ao estilo do samaritano e do estalajadeiro: familiares, vizinhos, profissionais e agentes pastorais da saúde que param, se aproximam, curam, acompanham e oferecem o que têm, dando à compaixão uma verdadeira dimensão social.
Cuidar dos doentes não é apenas uma parte importante da missão da Igreja, mas uma autêntica ação eclesial. Nesta dimensão, pode-se verificar também a saúde da própria sociedade, pois ela revela se os sãos servem os enfermos, se os familiares se amam sinceramente, se há verdadeira humanidade no cuidado dos mais frágeis.
3. Movidos pelo amor a Deus, para nos encontrarmos a nós mesmos e ao próximo
No duplo mandamento do amor — amar a Deus e ao próximo como a si mesmo — reconhecemos a primazia do amor a Deus e a sua consequência direta na forma como o homem ama e se relaciona em todas as suas dimensões. O amor ao próximo é a prova concreta da autenticidade do amor a Deus. Embora o objeto desse amor seja distinto — Deus, o próximo e nós mesmos —, estes amores são inseparáveis.
A primazia do amor divino implica que a ação humana seja realizada sem interesse pessoal ou expectativa de recompensa, mas como manifestação de um amor que se traduz num culto autêntico: servir o próximo é amar a Deus na prática. Amar-se a si mesmo, por sua vez, não significa basear a própria dignidade em critérios de sucesso ou prestígio, mas reconhecer-se diante de Deus e dos irmãos como alguém chamado à relação e ao dom.
Queridos irmãos e irmãs, o verdadeiro remédio para as feridas da humanidade é um estilo de vida baseado no amor fraterno, enraizado no amor de Deus. Desejo vivamente que nunca falte no nosso modo de viver cristão esta dimensão fraterna, samaritana, inclusiva, corajosa e solidária, que nasce da nossa união com Deus e da fé em Jesus Cristo. Inflamados por esse amor divino, poderemos entregar-nos verdadeiramente em favor de todos os que sofrem, especialmente dos nossos irmãos doentes, idosos e aflitos.
Elevemos a nossa oração à Bem-Aventurada Virgem Maria, Saúde dos Enfermos, pedindo a sua ajuda por todos os que sofrem e necessitam de compaixão, escuta e consolo, e supliquemos a sua intercessão com esta antiga oração:
Doce Mãe, não vos afasteis,
vossos olhos de mim não aparteis.
Vinde comigo por todo o caminho
e nunca me deixeis sozinho.
Já que me protegeis tanto
como uma verdadeira Mãe,
fazei com que me abençoem o Pai,
o Filho e o Espírito Santo.
Concedo de coração a minha bênção apostólica a todos os doentes, às suas famílias e aos que cuidam deles, bem como aos profissionais e agentes da pastoral da saúde e, de modo especial, aos que participam neste Dia Mundial do Doente.
Vaticano, 13 de janeiro de 2026
LEÃO PP. XIV
Fonte: www.vatican.va