Paulo, apóstolo das nações: uma leitura de Romanos 11,1-15

Paulo, apóstolo das nações: uma leitura de Romanos 11,1-15

PAULUS ADM

Autor: Pe. Manuel Gomes, ssp

A passagem de Romanos 11,1-15 introduz-nos numa das reflexões mais complexas e, ao mesmo tempo, mais profundas do apóstolo Paulo sobre o mistério da salvação e a relação entre Israel e as nações. A pergunta que dá início ao texto é particularmente delicada: «Terá Deus rejeitado o seu povo?». Paulo responde com uma das suas expressões mais enérgicas, mē genoito, «de modo nenhum», «jamais». O verbo utilizado na pergunta, apōsato, significa rejeitar, repudiar definitivamente. Paulo responde com vigor, excluindo esta possibilidade, porque está convicto de que Deus permanece fiel às suas promessas, mesmo quando os homens parecem afastar-se d'Ele.

Paulo está convencido de que ele próprio é a primeira prova desta fidelidade divina. Recorda que é israelita, descendente de Abraão, da tribo de Benjamim. A sua experiência torna-se, assim, um argumento teológico: se ele, judeu observante e outrora perseguidor dos irmãos, encontrou Cristo e foi chamado à fé, então Deus continua a agir no seu povo. Por detrás desta afirmação entrevê-se uma característica fundamental da figura de Paulo: a capacidade de superar os obstáculos e de transformar as contradições da própria vida numa missão. Ele traz em si dois mundos que frequentemente pareciam inconciliáveis. É filho da tradição de Israel e, ao mesmo tempo, o apóstolo enviado aos pagãos. Aquilo que poderia ter sido motivo de divisão transforma-se, pelo contrário, na fonte da sua vocação apostólica.

Para explicar o seu pensamento, Paulo evoca a figura do profeta Elias, que, num momento de desânimo, julgava ser o único fiel ao Senhor. Deus revelou-lhe, porém, que tinha reservado para Si sete mil homens que não tinham dobrado os joelhos diante de Baal. A partir deste episódio, Paulo desenvolve a categoria do «resto», em grego leimma. Na Bíblia, o resto não é simplesmente uma minoria numérica, mas o sinal concreto da fidelidade de Deus ao longo da história. Mesmo quando a maioria parece afastar-se, Deus conserva sempre um núcleo de crentes através dos quais continua a realizar a sua obra. Para Paulo, este resto continua a existir também no seu tempo: há judeus que acolheram Cristo – tal como ele – e que testemunham que a aliança não foi anulada.

O Apóstolo esclarece, contudo, que este resto existe «pela graça». O termo grego charis, um dos mais importantes da teologia paulina, designa o dom gratuito de Deus. A salvação não é o resultado das obras ou dos méritos humanos, mas nasce da iniciativa divina. Por conseguinte, se a salvação é um dom, ninguém pode reivindicar direitos particulares diante de Deus; sendo graça, pode ser oferecida a todos, sem distinção de origem, cultura ou pertença religiosa.

É precisamente a partir daqui que Paulo desenvolve o seu raciocínio missionário. Não interpreta a incredulidade de uma parte de Israel como um fracasso definitivo, mas como uma etapa misteriosa, embora necessária, através da qual o Evangelho chegou às nações. Paulo vê na história da salvação uma dinâmica surpreendente: a rejeição de alguns abriu caminho ao anúncio universal, e o acolhimento do Evangelho por parte dos pagãos pode tornar-se um estímulo para que também Israel redescubra a sua própria vocação. Não existe oposição entre Israel e as nações; existe, antes, uma história na qual Deus continua a agir para conduzir todos à salvação.

Quando Paulo afirma: «Eu sou apóstolo dos gentios e honro o meu ministério», utiliza o termo diakonia, que significa serviço. O apostolado não é, para ele, uma posição de prestígio, mas uma missão recebida de Deus. Por isso enfrenta viagens longuíssimas, perseguições, incompreensões, rejeições e até a desconfiança de alguns membros das comunidades cristãs. Contudo, nada consegue detê-lo, porque está convencido de que o Evangelho pertence a todos os povos. A sua missão nasce da certeza de que, em Cristo, caíram as barreiras que separavam os homens e de que cada pessoa é chamada a entrar em comunhão com Deus.

O ponto culminante do raciocínio encontra-se no versículo 15, onde Paulo fala da «reconciliação do mundo». O termo grego katallagē indica o restabelecimento de uma relação quebrada. Por meio de Cristo, Deus reconcilia consigo a humanidade e inaugura uma nova possibilidade de comunhão. A missão da Igreja consiste precisamente em anunciar esta reconciliação. Para Paulo, a evangelização não é apenas a transmissão de uma doutrina, mas a proclamação de um acontecimento que transforma a relação entre Deus e a humanidade.

Esta visão teve uma importância decisiva para o desenvolvimento do cristianismo nos primeiros séculos. As comunidades fundadas por Paulo e pelos seus colaboradores eram constituídas por pessoas provenientes de culturas, línguas e tradições diversas. Sem a reflexão paulina sobre a graça e a universalidade da salvação, a Igreja poderia ter permanecido uma realidade circunscrita ao judaísmo. Pelo contrário, graças à sua intuição teológica e à sua incansável atividade missionária, o Evangelho difundiu-se progressivamente pelas cidades do Mediterrâneo, alcançando homens e mulheres de todas as proveniências. Paulo ofereceu à Igreja nascente não apenas um modelo de apostolado, mas também as categorias teológicas necessárias para compreender que a fé em Cristo se destinava à humanidade inteira.

Romanos 11,1-15 apresenta-nos, assim, a imagem de um Apóstolo que sabe ler a história com os olhos da fé. Perante as rejeições, não desanima; perante as divisões, não renuncia à comunhão; perante os obstáculos, não abandona a missão. A sua vida e o seu ensinamento testemunham que Deus continua a agir mesmo nas situações aparentemente mais contraditórias e que o Evangelho possui uma força capaz de ultrapassar todas as fronteiras. Por isso, Paulo permanece, ainda hoje, a grande testemunha de uma Igreja chamada a sair de si mesma para anunciar a todos os povos a graça e a reconciliação oferecidas em Cristo.


Fonte: www.paulus.net

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